sábado, 9 de novembro de 2019

Psicoacústica 02 - Fatores subjetivos da audição humana

Os conceitos de intensidade sonora, audibilidade, sonoridade, efeito estéreo. Concluindo, um glossário técnico.


Continuemos a analisar os vários fenômenos que influem na percepção do som.

Recepção com bandas restritas de frequência - Uma experiência realizada por Olson em 1947, hoje considerada clássica, visou determinar até que ponto era preferível uma audição sem restrições (em relação à frequência), comparando-se com a outra, com largura de banda limitada.

A experiência foi realizada com orquestra ao vivo sendo utilizados filtros acústicos para suprimir as frequências superiores a 5000 Hz. Durante a experiência, alteraram-se as condições entre as duas modalidades, sem que o público ouvinte fosse conhecedor das mudanças; apenas pediu-se que se manifestassem por gestos, ao longo da execução. A maioria escolheu a execução com faixa de de reprodução completa, sem restrições, tanto para música como para voz.

Em todas as pesquisas realizadas depois desse experimento foi confirmada a preferência dos ouvintes, apesar de, em alguns casos, ter sido registrada a preferência por uma banda restrita, quando a ampliação poderia acrescentar distorções e ruídos indesejados.

Percepção da intensidade pelo ouvido - Os sons que ouvimos apresentam uma grande variação de combinações das características subjetivas (intensidade, tonalidade e timbre), assim como de duração. Já se viu como, sem considerar a intensidade, o ouvido reage de certo modo perante as variações de frequência. De igual modo se verificam reações diversas perante as variações de intensidade.

Diversas experiências demonstraram que os limites de audibilidade, em relação à pressão sonora e nas frequências médias, são 2 x 10-4 µbares, que é o limiar de audição, e 200 µbares que é o limiar da dor - isto é, quando a movimentação do mecanismo do ouvido é tão violenta que causa dor e até ruptura da membrana e dos ossículos. Esses valores podem variar com a pessoa e a idade, mas foram considerados padrão para o mínimo e o máximo da banda de audição do ser humano.

Os sons de pressão inferior ao limiar de audição não podem ser percebidos pela grande maioria das pessoas. Por outro lado, os sons de pressão superior ao limite máximo podem causar danos permanentes ao sistema auditivo. Em alguns casos, aumentos excessivos de intensidade sonora podem não ser percebidos como "sons", mas causar sensações desagradáveis, como vertigens, arritmias cerebrais, auras pré-epilépticas e outros distúrbios mentais. É fenômeno que ocorre com muita frequência nos "embalos" de música dita moderna, nas discotecas. Vários pesquisadores já concluíram que os sons musicais em altíssimos níveis estão ligados ao consumo de drogas, em boa parte dos casos.

Sensibilidade do ouvido - Assim como foram diferenciados os conceitos de tonalidade e de frequência, devemos estabelecer uma distinção entre intensidade (grandeza física, mensurável) e sonoridade (sensação subjetiva). Pode-se dizer que a sonoridade é proporcional ao logaritmo da intensidade (segundo a Lei de Fletcher-Weber).

Por outro lado, a sonoridade, além de ser função da intensidade, varia com outros fatores, tais como frequência, largura de banda, duração etc. O conhecimento que se tem neste campo é ainda muito incompleto, mas pode-se comprovar, a partir dos resultados de diversas experiências, a existência de certos fatores e peculiaridades do sistema auditivo.

O estudo da resposta do ouvido como reação à intensidade sonora está sendo investigado em várias partes do mundo, devido à influência sobre a saúde humana. Experiências tem demonstrado que, sendo o sentido da audição o mais utilizado pelo ser humano, na atualidade (juntamente com o da visão), torna-se responsável por vários comportamentos e condutas e também por muitos dos males que acometem a humanidade.

Durante o 1º Simpósio de Ensino Acelerado, realizado na Universidade do Rio de Janeiro, sob a orientação do prof. Luiz Machado, do laboratório de Linguagem, foi demonstrado como certos sons podem modificar, quase de modo subliminar, o comportamento humano, predispondo-o para procedimentos antes recusados.

O ouvido é mais sensível aos níveis mais baixos de intensidade sonora. A pressão de 2 x 10-4 µbares (correspondente ao limiar da audição) é 5 bilhões de vezes menor que a pressão atmosférica, na superfície da Terra. Nas intensidades mais elevadas, o ouvido tem como que um sistema de autoproteção, que diminui a sensibilidade, sendo preciso muito mais pressão sonora para manter linear o nível de audição. Note também que, nas frequências muito baixas, o ouvido perde sua sensibilidade. Caso contrário, o ruído das articulações e o pulsar das artérias seriam insuportáveis.

Nível de pressão sonora e potência acústica - Já dissemos da necessidade de ser utilizada uma escala logarítmica para adaptação da chamada Lei de Fletcher-Weber. O nível sonoro de cada som, expresso em dB SPL, tem uma correspondência com as expressões e intensidades sonoras. O ponto de referência equivalente a uma pressão de 2 x 10-4 µbares é o nível da pressão sonora 0 dB SPL. Antes dizia-se que 1 dB SPL era a quantidade mínima de som que o ser humano podia perceber. Porém, hoje, sabe-se que não é bem assim.

Fazer corresponder o limiar de audição ao ponto 0 dB SPL parece sugerir que esse valor significa silêncio absoluto, o que não é rigorosamente verdade. Outra grandeza, definida anteriormente, é o watt acústico, que não é muito utilizado em amplificação de áudio. De qualquer modo, para dar uma ideia da potência acústica associada a diversos sons, na Tabela 1 temos alguns exemplos, onde se pode verificar a enorme diferença existente entre eles. A conversação normal, por exemplo, situa-se nos 20µW, e a fala muito elevada, ao redor dos 40 µW.

Tabela 1 - Potência acústica de alguns sons

Variação da sonoridade com a frequência - Sendo o dB SPL um modo de expressar matematicamente a pressão sonora, constitui uma grandeza mensurável e independente, portanto, de interpretação subjetiva, já que não tem uma relação exata com a sonoridade. Para medir a sonoridade criou-se uma nova unidade, denominada fon.

Por definição, o fon é uma sensação subjetiva que um dB SPL produz quando a frequência for de 100 Hz. Como a sonoridade é uma grandeza subjetiva, a melhor maneira de medi-la é reunir um grupo de pessoas, submetê-las a determinados estímulos, anotar suas reações, analisar os resultados e, finalmente, chegar a uma conclusão que permita obter uma lei empírica.

Para estudar a variação de sonoridade em função da frequência seguiu-se, como em muitos outros casos em acústica, esse processo. Em 1933, Fletcher e munson realizaram uma amostragem com milhares de pessoas (visitantes da Feira Mundial de Nova Iorque) e determinaram de modo evidente a relação que existe entre sonoridade, nível de pressão sonora e frequência. As pessoas que participaram dessa amostragem estavam na faixa etária de 18 a 25 anos e foram colocadas em uma sala anecóica (ambiente que elimina todo e qualquer eco e reflexão). Era solicitado às pessoas que comparassem a sonoridade de um tom de referência (uma onda senoidal de 1000 Hz) com a do tom de prova, ambos reproduzidos por alto-falantes. Em todos os casos, eram conhecidos o nível de pressão sonora de ambos os tons.

Repetindo a experiência em diversas frequências e intensidades e obtendo a média dos resultados, foi montada uma curva semelhante à da figura 9. Essas curvas não são as originais da experiência de Fletcher e Munson, mas sim as obtidas por Robinson e Dodson, do National Physical Laboratory, na Inglaterra.

Figura 9 - Curvas de mesma sonoridade para tons puros,
em campos acústicos frontais.

Elas referem-se ao caso da frequência de teste ser um tom puro. Existe outra coleção de curvas, obtidas por Stevens em 1956, na Universidade de Harvard, referente a ensaios com faixas de ruído em ambientes de reverberação média. Em 1966, Baver e ToTorick, dos laboratórios da Columbia Broadcasting Systems, obtiveram curvas diferentes, referentes a oitavas de ruído rosa, para casos semelhantes aos encontrados em ambientes domésticos.

Embora todas essas curvas guardem uma certa semelhança entre si, existem algumas diferenças apreciáveis, devido provavelmente aos diversos tipos  de sinais utilizados, meio ambiente de audição ou ao método de medida. Tudo isto nos dá uma ideia da dificuldade de se apreciar objetivamente as reações do ouvido.

Uma observação das curvas da figura 9 mostra detalhes interessantes, já que nos pontos ao redor de 1000 Hz fez-se corresponder o dB SPL com fons. Observa-se, por exemplo, que para obter uma sensação de 50 fons, necessita-se de 50 dB SPL em 1000 Hz, 8 dB SPL em 31,5 Hz, 42 dB SPL em 4000 Hz e 58 db SPL em 800 Hz. Isto significa que o ouvido tem uma sensibilidade máxima na região de 3000 a 4000 Hz, onde se obtém a maior sonoridade para um determinado nível de pressão sonora.

Nas curvas da figura 9 foi considerado como nível de audição o correspondente a 3 fons. Na realidade, esse limiar varia de pessoa para pessoa, de modo que somente cerca de 50% dos seres humanos tem um limiar de audição acima de 20 fons.

Sonoridade - Apesar de haver uma correspondência entre as pressões acústicas e a sensação subjetiva, a escala em fons apresenta certos paradoxos - como, por exemplo, a impossibilidade de se somar fons. Se for produzido um sinal de 200 Hz e outro de 4000 Hz, com a mesma sonoridade de 70 fons, o resultado final não dá 140 fons, uma vez que ambos os tons se percebem com uma sonoridade total de 80 fons.

Foi demonstrado por diversos experimentadores que, para níveis superiores a 40 fons, são necessários mais 10 fons para duplicar a sensação de sonoridade. Um nível sonoro de 100 fons não é, portanto, o dobro de 50 fons, mas 30 vezes maior.

Experiências recentes têm sugerido o nível de 9 fons (e até 6 fons) como o mais exato para duplicar a sonoridade; mas a maioria das pesquisas são coincidentes em indicar a quantidade de 10 fons como a adequada para se conseguir essa sensação de duplicação.

Com base nessa quantidade, criou-se uma nova escala de medidas de sonoridade, na qual a duplicação de sonoridade corresponde exatamente a uma quantidade dupla de unidades dessa escala. Essa unidade é denominada sones. Por definição, um sones corresponde à sonoridade de 40 fons. Para níveis de sonoridade de 40 fons ou superiores, a sonoridade em sones é:

S = 2(F-40)/10

Onde S é a sonoridade em sones e F, o nível de sonoridade em fons. A Tabela 2 indica níveis médios de sonoridade em fons, de diversos sons, assim como sua equivalência em sones.

Tabela 2 - Níveis médios de sonoridade de vários sons.

Variação da sonoridade com a largura de banda - Os sons com espectro de frequência amplo parecem mais fortes do que os tons puros ou bandas estreitas de ruído, se bem que ambos tenham o mesmo nível de pressão sonora. Os ensaios que se realizam para comprovar esse fato começam por submeter o ouvinte à escuta de uma estreita banda de ruído, centrada numa determinada frequência.

A largura de banda é aumentada progressivamente, a fim de manter o mesmo nível de pressão sonora. Existe um determinado ponto a partir do qual começa-se a receber maior sonoridade. Esse ponto é definido como largura crítica de banda.

Para larguras de banda inferiores à crítica, a sonoridade é a mesma. Para larguras de banda maiores, a sonoridade aumenta proporcionalmente com a largura de banda. Na figura 10, temos a ilustração do que dissemos: para cada frequência central define-se uma largura de banda crítica diferente que é determinada de modo empírico.

Figura 10 - Efeito da varrição da sonoridade com a largura de banda
(frequência central de 1 kHz, nível de pressão sonora em 60 dB e
largura de banda crítica em 180 Hz).

Ficou comprovado, porém, que cada largura de banda crítica corresponde a um intervalo de frequência de 100 mel ou 1 bark. Pode-se, portanto, definir o bark como largura de uma banda crítica.

Variação da sonoridade com a proximidade em frequência - A sensação da intensidade também é influenciada pelo efeito de mascaramento - que se produz quando os sons estão muito próximos em frequência. Se for em produzidos simultaneamente, por exemplo, um tom de 300 Hz, com nível de sonoridade de 70 fons (ou 8 sones), e outro de 5000 Hz, com o mesmo nível de sonoridade, a total será a soma das parciais (em sones) de ambos - isto é, 16 sones ou 80 fons.

Se, por outro lado, tivermos dois tons da mesma frequência, com a mesma sonoridade, a sensação produzida por ambos não será o o dobro do que produz uma só, mas apenas ligeiramente maior. Isto quer dizer que só é possível a soma direta de sonoridades entre sons que estejam muito separados em frequência. Quanto mais próximos estiverem, mais se influenciam mutuamente, e a sonoridade total é inferior à soma das sonoridades de ambos, em separado.

Tal efeito é denominado mascaramento parcial e pode chegar a ser total quando existe, além de uma grande proximidade em frequência, uma notável diferença na sonoridade. Assim, um som forte oculta por completo outro mais fraco, que não contribui para aumentar a sonoridade.

Isto é explicado porque se admite que, quando os sons excitam os mesmos nervos no ouvido, as células se movem em resposta à excitação mais forte e não reagem à mais fraca. Nos casos de mascaramento, as frequências mais baixas tendem a ocultar as mais elevadas. Esse efeito de mascaramento desempenha papel importante nas medidas de acuidade auditiva, quando se obtêm audiogramas das pessoas.

Calcula-se que os sons devem estar separados pela largura de 8 a 10 bandas críticas para que não ocorra mascaramento; nesse caso, a sonoridade total é a soma das sonoridades parciais (em sones). Se estiverem separados por menos de uma banda crítica, pode-se chegar ao mascaramento total, dependendo do nível de pressão sonora de cada som (no caso de possuírem o mesmo nível, o resultado é simplesmente 3 dB acima do nível de cada um deles). Se a separação entre os sons for intermediária entre os casos expostos, o mascaramento será apenas parcial.

Variação da sonoridade com a duração - A sonoridade será independente da duração, quando esta for superior a cerca de 100 ms; quando for menor, será necessário aumentar o nível de pressão sonora para se obter a mesma sonoridade. Por experiências, comprovou-se que a "constante de tempo" do ouvido situa-se nos limites precisos entre 100 e 200 ms.

Atenuação da intensidade com a distância - A intensidade sonora diminui com a distância, independentemente da maior atenuação que as frequências sofrem no ar. Na figura 11 temos a atenuação sofrida pelo som em função da distância (com referência a um nível de 0 dB a 1 metro). Observa-se uma atenuação de 6 dB cada vez que é duplicada a distância do foco sonoro. Tais valores correspondem a medidas efetuadas em campo livre, pois em recintos fechados ocorrem algumas variações, que dependem das características de cada local. Pode-se estimar, porém, que a atenuação é ligeiramente inferior nesses casos.

Figura 11 - Atenuação do som com a distância.

Discriminação das intensidades pelo ouvido - O poder discriminador do ouvido com relação aos níveis sonoros varia em função da frequência e do nível de pressão sonora. Em frequências médias, para níveis de 40 dB ou menores, a mínima variação perceptível costuma ser de 3 dB. Acima de 60 dB, notam-se, com relativa facilidade, variações de 1 ou 2 dB, e existem pessoas que podem distinguir variações de 0,5 e até 0,25 dB.

Nas frequências baixas, a sensibilidade é menor. A 35 Hz, por exemplo, torna-se necessário aumentar a pressão sonora em 9 dB para que o ouvido perceba alguma diferença. Por vezes, variações muito pequenas de intensidade, que não se podem apreciar como tais, são interpretadas de outro modo. Uma experiência que se faz é colocar uma pessoa ouvindo um sistema de alta-fidelidade; subitamente, troca-se o amplificador por outro, absolutamente idêntico, mas fornecendo uma potência de 0,5 a 1 dB maior que a do anterior. Ao se pedir a opinião do ouvinte ele dirá, na maioria dos casos, que o amplificador que está liberando mais potência tem "melhor" som.

A diferença de sonoridade, impossível de ser apreciada por muitas pessoas - principalmente por aquelas que não têm oportunidades de educar-se em um meio musical - é interpretada como diferença de qualidade entre os dois amplificadores.

É possível observar até cerca de 280 condições distintas de intensidade, desde o limiar de audição até o limite de dor, como também se podem discriminar cerca de 1400 tons distintos (e a maioria dos sons é resultado de combinações de intensidades e tons). Assim, pode-se dizer que o ouvido é capaz de diferenciar 280 x 1400 = 392000 sons distintos, aproximadamente.

Figura 12 - Áreas da audição humana e as posições ocupadas
pelos sons musicais e pela fala.

Como síntese de tudo que foi dito acima, a figura 12 mostra os campos de frequência e níveis de pressão sonora em que se situa a maioria dos sons que nos rodeiam. A Tabela 3 refere-se à bandas dinâmicas de diversos instrumentos musicais.

Tabela 3 - Alcances dinâmicos da música.

Influência do ruído sobre o organismo humano - O ruído perturba grande parte das atividades humanas, tal como o trabalho ou concentração intelectual, o sono, a digestão etc. Produz fadigas, nevralgias, arritmias cerebrais e cardíacas, acessos de asma etc. Ruídos de elevada intensidade produzem efeitos adversos sobre o aparelho auditivo, podendo causar surdez permanente.

No aspecto psicológico, afeta a produtividade, impedindo a concentração, como já foi dito, ou provocando atitudes incompatíveis com a convivência em grupo, seja de trabalho, diversão ou familiar. Pode produzir algumas doenças nervosas. E com a dita "civilização" barulhenta, o ouvido humano, para proteger-se está perdendo a sensibilidade. existem povos, isolados desta nossa civilização, que causam assombro aos "civilizados", por perceberem sons extremamente fracos.

O resultado da exposição contínua do ouvido a diversos sons recebe o nome de presbiacusia. Há um efeito que faz com que o limiar de audição se desloque para níveis mais elevados, depois de o ouvido ter sido submetido a níveis além dos que está habitualmente acostumado. Há como que uma espécie de perda momentânea da sensibilidade acústica, um verdadeiro entorpecimento.

É normal, depois de uma pessoa haver passado horas em ambiente muito ruidoso, ter uma espécie de surdez que a impede de ouvir corretamente os sons abaixo de um certo nível. Esse efeito é supostamente temporário, porém as pessoas que trabalham em campos de aviação e fábricas ruidosas, com o tempo, vão perdendo não só a acuidade auditiva, como o fator de inteligibilidade das palavras, ou seja, ouvem mas não entendem.

O dr. Mauro Pena e o prof. Aristides Monteiro fizeram, há alguns anos, um trabalho muito interessante sobre o assunto, examinando os operários do Arsenal de Marinha, na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Foi um trabalho pioneiro no mundo e as conclusões a que chegaram serviram para provocar alterações na legislação de proteção, relativa à higiene de trabalho.

Esse é um dos campos de muitas pesquisas nos meios audiológicos, e continuamente são publicados trabalhos e observações sobre o assunto. De passagem, cite-se que o Prêmio Nobel de Medicina sobre tais assuntos coube a um engenheiro de telecomunicações...

Audição binaural e efeito estereofônico - Se bem que os sistemas de reprodução em dois canais (estereofonia) sejam relativamente recentes, a audição binaural existe desde o aparecimento de certos animais e, entre eles, o antepassado do ser humano. Porém, até bem pouco tempo era crença generalizada que a existência de dois ouvidos (como de dois rins, ou dois pulmões) se devia a uma questão de simetria ou previsão da natureza: se um dos órgãos deixava de funcionar, o outro assumia as funções.

Apesar de existirem evidentes indícios de que os ouvidos serviam para algo mais do que apenas ouvir, não se começou a examinar cientificamente esse aspecto até o século XIX. As experiências de Weber (1846) e Lord Rayleigh (1876) esclareceram o assunto e abriram caminho para a investigação do fenômeno de localização, por meio do som, da fonte que o emitiu. Mas neste aspecto, como em outros relativos à audição, continuamos a ter conhecimentos incompletos.

Funcionamento binaural do ouvido - Os ouvidos funcionam de forma diferente dos outros órgãos do corpo humano com os quais poderiam ter alguma semelhança. A luminosidade, por exemplo, percebida pelos olhos, não varia se a olhamos com um olho só ou com os dois, mas a sonoridade que se nota com os dois ouvidos é maior do que quando utilizamos apenas um deles.

Por outro lado, os ouvidos formam canais receptores que são independentes entre si. Não se verificam interferências entre eles, e as combinações das frequências recebidas em cada ouvido não criam efeitos diferentes em distintas partes do cérebro.

Aliás, cabe aqui uma observação. O hemisfério esquerdo do ser humano ocidental, quando avariado impossibilita a fala e o aprendizado de linguagem. Nos japoneses e chineses, que utilizam linguagem concreta e simbólica (portanto, diferente da linguagem concreta dos ocidentais), a avaria do hemisfério esquerdo, na área da linguagem, não impede que a pessoa mantenha resquícios de linguagem. É um aspecto fascinante e que está sendo estudado intensamente em setores especializados de universidades japonesas, pois só lá é possível encontrar normalmente pessoas, cuja linguagem não foi afetada por avarias no hemisfério esquerdo do cérebro.

Só com níveis muito altos pequenas partes de energia sonora são transferidas de um ouvido para outro, e isso devido à condução através dos ossos do crânio. A informação que cada ouvido recebe é processada no cérebro - onde, comparando os impulsos nervosos que cada som produz, são interpretados todos os aspectos do impulso nervoso que foi originado por uma onda sonora no ouvido externo. Esse fenômeno de análise do som, nos dois ouvidos, e análise final, no cérebro, é denominado fusão binaural.


Bibliografia consultada


  • Introdução à Psicoacústica - José Manuel Astorga (M.E.).
  • Psicoacústica - Virgilio Rodrigues Ferreira de Almeida (S.R.).
  • Psychology of Music - Carl E. Seashore (M.G.H.).
  • A Comparison of Audiology Images os Musicians, Psychologists and Children - Marie A. Agnew.
  • Phaenomene des Musikalischem Horens - Fritz Winckel (M.H.V.).
  • Physiological Acoustics _ E. G. Wever e M. Lawrence.
  • Curso de Audiologia - Apostilas do curso ministrado no I.N.E.S. entre 1956 e 1975 - Prof. Apollon Fanzeres.


Glossário de unidades acústicas

Velocidade de propagação das ondas sonoras

A velocidade de propagação da onda sonora depende do meio em que ocorre (líquido, sólido ou gasoso) e de outras condições. A transmissão das ondas sonoras, no ar, com uma pressão de 1 atmosfera e na temperatura de 20º C, é de aproximadamente 343 metros por segundo. A letra utilizada normalmente para indicar a velocidade é c.

Frequência

O número de vibrações por segundo que a fonte sonora produz é a frequência da onda sonora. A unidade é o Hertz (Hz). O período T é o inverso da frequência, que se mede em segundos e indica o tempo que dura uma vibração completa. A letra utilizada para indicar frequência é f.

Comprimento da onda

É a distância percorrida pela onda sonora para completar um ciclo, ou seja, a distância entre duas partículas consecutivas que se encontram na mesma posição. Numericamente é o quociente entre a velocidade de propagação e a frequência. A letra utilizada para sua designinação é o lâmbda (λ).

Figura 13 - Representação de uma onda sonora em função da distância.

Pressão da onda sonora

O som em um determinado ponto é uma variação rápida da pressão do meio, nesse ponto. Essa pressão, na ausência de qualquer som, tem um valor considerado constante, já que suas variações são muito lentas em comparação com as variações da onda sonora. No caso do ar ser o meio de propagação, a pressão de referência á a atmosférica. Os aumentos de pressão são denominados compressão e as diminuições, rarefação. A letra designativa é p.

Figura 14 - Representação de uma onda levando em conta
a compressão e a rarefação do ar.

Amplitude ou deslocamento

Denomina-se amplitude ou deslocamento o desvio máximo das partículas do ar em relação à sua posição de repouso. A letra utilizada para indicá-la é d. A equação é a seguinte:

onde u é a velocidade das partículas e f, a frequência.

Intensidade sonora

A intensidade sonora, análoga à potência elétrica, é a energia sonora que atravessa uma superfície com uma área unitária, perpendicularmente à direção de propagação, na unidade do tempo. A unidade mais usual é o watt por centímetro quadrado. A letra indicadora é I. A equação matemática é a seguinte: 

onde p é a pressão sonora e u, a velocidade da partícula.

Impedância acústica

É a relação entre pressão sonora e a velocidade da partícula, multiplicada pela unidade da área. A letra indicadora é Z.


A unidade de impedância acústica é o ohm acústico (1 ohm acústico = 1 dyn x s/cm).

Potência acústica

A potência total transportada através de uma superfície por uma onda sonora é igual ao produto da intensidade na superfície multiplicada pela área desta, admitindo-se como uniforme a intensidade de superfície. A letra utilizada é W.


Decibel

Em acústica, as margens de intensidades, pressões etc. são muito amplas e não têm um sentido muito real, uma vez que as referidas grandezas físicas não correspondem linearmente às sensações que produzem. A lei psicofísica de Fletcher-Weber estabelece que a sensação sonora percebida pelo ser humano é proporcional ao logaritmo do estímulo que produz a sensação. É por essa razão que se utilizam escalas logarítmicas, onde a unidade (o decibel, nesse caso) não exprime valores absolutos, mas sim valores relativos, com referência a um determinado nível. Utiliza-se o decibel em eletrônica para indicar as relações entre potências, tensões ou intensidades.

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